terça-feira, 9 de março de 2010

A OBRA DE ANTÓNIO QUADROS

Conheci António Quadros muitos anos antes de o conhecer – os primeiros trabalhos que li dele foram talvez os artigos que publicava nos jornais, creio que no Diário Popular, o excelente vespertino ao qual dei assídua colaboração, assim como a O Primeiro de Janeiro. Confesso que já não sei qual terá sido o primeiro que li dele, mas os seus estudos que mais me aproximaram dele – embora à distância - foram aqueles que publicou sobre Fernando Pessoa., entre os quais saliento Vida, Personalidade e Génio do Poeta da Mensagem.

Li quase todos os seus livros e desde sempre me despertou a diversidade cultural da sua acção. Admito, porém, que me preocupavam os seus laços com certas figuras do regime político, que eu não aceitava. Mais tarde, verifiquei o meu engano em relação a António Quadros - nunca discutimos política e concluí que estávamos mais próximos um do outro do que eu pensara. Nem eu nem ele tínhamos pretensões políticas, ainda que tivéssemos opiniões próprias, apesar de me considerar sempre adverso das ditaduras.


A explicação é necessária num mundo cada vez mais fanatizado pelos partidos. Contudo, o que mais me aproximou de António Quadros foi o seu fervor pelos mil e um aspectos da Cultura Portuguesa. com relevo para as relações entre os 8 paises de idioma comum, perfeitamente caracterizados nos seus artigos e livros. É claro que um dos nossos temas ´preferidos foi a obra de Fernando Pessoa, mas os seus comentários sobre o diálogo cultural luso-brasileiro despertaram-me o maior interesse.

Em 1988, coordenamos na Academia Paulista de Letras, em São Paulo, o I Encontro de Estudos Pessoanos, do qual participaram destacados ensaístas brasileiros e portugueses, assinalando, entre outros, João Gaspar Simões, Teresa Rita Lopes e António Quadros, conforme ilustra a revista cultural Comunidades de Língua Portuguesa (agora, com 22 volumes publicados!). Foi no decurso desse diálogo lusíada que da admiração intelectual passamos à amizade.

Certa vez, fomos Lisboa e recebemos convite para uma reunião em casa da escritora Fernanda de Castro - e lá fomos encontrar um admirável grupo de escritores e artistas de vários sectores, incluindo alguns discordantes (como nós) do fascismo ainda em vigor. Recordo que um escritor que mais ou menos me conhecia estranhou a minha presença – e eu disse que viera sem preconceito, por se tratar de um encontro de artistas e intelectuais...certamente nas condições em que ele comparecera; No fundo, a reunião foi para conversar sobre artes e letras.

Mais tarde, ainda escutaria a voz de D. Fernanda de Castro quando, por telefone, lhe pedi para dizer algo sobre a sua presença em São Paulo, em 1922, meses após a Semana de Arte Moderna. Não tive resposta ao meu pedido, mas a capa de Ao fim da Memória (II volume) traz um retrato da grande pintora do modernismo brasileiro Tarsila do Amaral – cuja cópia chegou às mãos de António Quadros por meu intermédio – em 1962 gravei um depoimento da artista plástica e foi-me mostrado esse retrato (estava à venda por 70 mil cruzeiros!), que veio a ser comprado pelo Governo do Estado de São Paulo e que fui rever na residência estadual de veraneio paulista de Campos do Jordão – pedi uma fotografia que enviei ao amigo Quadros. (Há mais um retrato Fernanda de Castro, pintado por Anita Malfatti – a outra musa do modernismo no Brasil) e tenho o projecto de consagrar às duas pintoras um comentário, pois trata-se do testemunho da ligação de Fernanda de Castro e António Ferro (em 1922) com os “futuristas” brasileiros.

Voltando, porém, a António Quadros, observa-se que na sua obra são constantes as referências, conforme testemunham os livros Poesia e Filosofia do Mito Sebastianista (com uma oportuna digressão pelo Sebastianismo Brasileiro), O Projecto Áureo ou o Império do Espírito Santo; Memória das Origens, Saudade do Futuro; Portugal, Razão e Mistério; A Idéia de Portugal na Literatura Portuguesa dos Últimos 100 Anos, O Romance Brasileiro Actual e, sobretudo, as aproximações sugeridas em Fernando Pessoa/ vida. Personalidade e génio.

Alguns pesquisadores e professores brasileiros começaram já a freqüentar a Fundação António Quadros (cujo acervo reúne também vasta documentação das obras de Fernanda de Castro e António Ferro, pais de A. Q. - e tudo leva a esperar que a Instituição, fundada há cerca de um ano em Lisboa possa contribuir valiosamente para a aproximação das Culturas Portuguesa e Brasileira.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Peço a palavra: O INESPERADO FIM DO ANO DE 2009, QUE VIVI HOSPITAL DE SÃO JOAQUIM, EM SÃO PAULO

1- Talvez vez seja oportuno lembrar que, após um ataque de tosse, pode vir outro – e foi o que me aconteceu. Depois do primeiro, vieram muitos, embora ao chegar ao pronto-socorro do grande hospital da Beneficência Portuguesa esperasse achar depressa a mezinha salvadora e voltar para casa, antes que os meus filhos e netos fossem cumprir os programas que haviam feito para a noite de 31 de Dezembro. Mas não foi assim e eu e a minha Mulher ficámos num apartamento hospitalar confortável e em segurança.

Afinal, a broncopneumonia foi eficazmente combatida, mas não sem afetar outros órgãos, entre os quais o coração, a garganta e sei lá mais o quê e somente após 36 dias pude regressar a casa – espero que por bastante tempo! Sentia-me protegido, no hospital São Joaquim (a Beneficência Portuguesa de São Paulo inaugurou há meses as novas instalações do São José (que fica do outro lado da rua), moderníssimo (aliás, ambos estão super-equipadíssimos, dispondo de mais de 60 salas de cirurgia e de quase 2.000 leitos), contando com a assistência de cerca de 1.500 médicos e vários milhares de enfermeiro(a)s - no total, são perto de 5.000 os funcionários: admito que o conjunto hospitalar luso-paulista é não só o maior do Brasil mas também do vasto Mundo Português.

Aqueles que ainda não puderam avaliar o esforço da emigração portuguesa têm na Real e Benemérita Associação Portuguesa de Beneficência Portuguesa de Beneficência de São Paulo, fundada em 2 de Outubro de 1859, o exemplo da fé inquebrantável da Diáspora Lusíada, cujos representantes dispersos pelos 5 Continentes dignificam a Pátria distante e os países onde se radicam. Os emigrantes portugueses valem pelo que constroem!

2- Sim, quando temos dores, as noites custam a passar. E sem dores também custam: o silêncio não é apenas de ouro. A semi-sonolência levou-me com freqüência à aldéia natal e a toda a Beira-Serra, aos familiares e amigos, a Lisboa e a São Paulo (onde, afinal, eu me encontrava). E as pessoas vivas e mortas dialogavam comigo – lá em frente, eu via os soutos (que já desapareceram), as oliveiras e os meus amigos de outrora. E eu renascia! Sonho? Talvez, mas era o passado que se confundia com o presente, era o meu Pisão restaurado, após a grande luta que a gente da minha terra travou pelo progresso comunitário. E, entre os felizes minutos revividos, algumas mágoas e incompreensões dos que não me conhecem. Haja o que houver, valeu a pena!

3- Já estou outra vez na luta, mas, antes de concluir, quero agradecer aos amigos que me contactaram e desejaram “boa saúde”!

domingo, 13 de dezembro de 2009

O MENINO JESUS DO SENHOR DA LADEIRA E OS OUTROS MENINOS DE NATAL


Um dos mais belos Meninos Jesus de Natal é, para o meu gosto e para o meu coração, o do Senhor da Ladeira, que fica no Mont’Alto de Arganil. Porém, há muitos outros que estão em inúmeros livros, jornais ou revistas que consideram os Meninos Jesus revividos na quadra de Natal.

Na verdade, o Pai Natal importado dos países do Norte europeu funcionam cada vez mais como marcas registadas do comércio (não que sejamos contrários às vendas, pois entendemos que os lucros comerciais devem ser aceitáveis quando razoáveis e resultam de um investimento correcto). Aliais, a especulação financeira foi condenada por Jesus. Quer dizer, a história é diferente da que pretendemos contar – o Menino Jesus de todos os Natais.

Há um Menino Jesus da Cartolinha que também é constantemente reproduzido: já o vimos na Sé Catedral de Miranda do Douro e, por mais simpático já é grandão, se o compararmos ao do Senhor da Ladeira, no Mont’Alto, um verdadeiro amor de Jesus. E recordo igualmente o Menino conhecido por “O Capitãozinho”, explicado pelo Pe. J. Quelhas Bigotte, na excelente Monografia da Vila e Concelho de Seia (História e Etnografia, 2ª. edição).

Diz-nos o Pe. Quelhas Bigotte que o popular “Capitãozinho” apareceu no convento de Vinhó, onde a Sóror Baptista do Céu Custódio (a “Tia Baptista”) “imaginou o Menino Jesus vestido com trajes de maior gala e, como um dia visse um ofical general, concebeu logo a i´deia de vestir o seu Menino Jesus com a farda de Capitão dos exércitos”. E logo o Povo começou a cantar:

“Lá numa encosta cimeira
Da serra mais altaneira
Das armas de Portugal,
Mora, vizinho dos céus.
Um Jesus,Menino e Deus,
Cavaleiro e general.”

Os escritores Joaquim de Montezuma de Carvalho, José Caldeira e Nuno Mata, publicaram artigos sobre esta lenda religiosa que continua a espalhar-se pela nossa Beira-Serra acerca deste Menino inigualável, acerca do qual Aquilino Ribeiro fez O Livro do Menino-Deus e Miguel Torga escreveu 22 poemas de Natal. E talvez se referissem os nossos Meninos Jesus da Beira se os conhecessem todos, pois se o primeiro nasceu na Beira e o outro andou por ela, de Seca e Meca aos Olivais de Santarém (com certeza passaram pela cordilheira da Estrela...)

Muito mais diríamos se tivéssemos tempo e espaço, mas voltemos ao Menino Jesus da Ladeira de Nossa Senhora do Mont’Alto (de que guardamos a imagem de um calendário que mandei emoldurar), pois ainda tenho de referir as três crônicas que a escritora Regina Anacleto publicou na (já) antiga “Comarca, em 1991: “As imagens do Menino Jesus, também denominadas de vestir, começaram a aparecer em Portugal no século XVI e vulgarizaram-se no seguinte, mas a sua difusão encontra-se relacionada com o movimento da reforma católica, surgida depois do Concílio de Trento”.

Não obstante a primitiva imagem do Menino do Senhor da Lareira foi um galante rapaz, vestido à portuguesa. que vimos pela primeira vez num belo estudo do então jovem Alberto da Veiga Simões, na revista “Ilustração Portuguesa” (em 1906), retrato que Regina Anacleto também reproduziu no seu 3º. texto sobre o Menino Jesus da Ladeira. E de acordo com a historiadora arganilense a figura do rapaz espigardote terá sido substituída por uma roupa lusíada do Menino Jesus.

Entretanto, subsiste a lenda de que, após as violências dos franceses, quando se aproximaram de Arganil os segundos invasores uma devota mulher do povo prometeu “revestir” o Menino com um traje “à Napoleão” em desafronta aos inimigos, ladrões, incendiários e assassinos. E eles passaram ao largo, felizmente, e o nosso Menino Jesus afastou igualmente de Arganil os terceiros invasores, e ainda hoje continua de pé, sorridente, alegre e parece que irônico, bonito, com seu bastão de comando e o símbolo do poder do mundo em suas mãos.

DIÁLOGO COM O ESCRITOR JOÃO ALVES DAS NEVES

Entrevista concedida ao “Portal Galego”, solicitada por José Carlos, correspondente no Brasil do “Portal”.

1. Quando foi fundada e quais os objetivos da Revista “Lusofonia”?


Estamos na Internet desde o início de 2009 com os blogs www.joaoalvesdasneves.blogspot.com e www.revistalusofonia.wordpress.com, com assinalando que este ultimo tem a colaboração de brasileiros e portugueses que comentam os mais diversos temas, desde as artes & letras à economia, política, etc. E a nossa pretensão é dar notícias e comentários corretos aos Internautas de Portugal e do Brasil, Angola e Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé-e-Príncipe, Timor e outros núcleos que falem e escrevam o idioma português.

2. Com relação ao Acordo Ortográfico, já vigorando no Brasil, mas ainda sofrendo grande resistência, principalmente em Portugal. Em sua opinião, o que é necessário para que todos os paises adotem o Acordo?

Nada mais do que cumprir as propostas dos lingüistas e assinadas pelos respectivos Governos! Por que é que os discordantes de hoje não protestaram antes?

3. Quais são os pontos positivos e negativos do Acordo Ortográfico?

Quantos estudiosos do nosso idioma serão contra? Ninguém sabe! Mas sabe-se que, por mais idôneos possam ser alguns dos contestatários, a maioria dos manifestantes não é capaz de explicar as suas discordâncias.

4. Caetano Veloso tem uma canção que diz: “A língua é minha pátria E eu não tenho pátria. E quero frátria (Língua - Editora Gapa). Em sua opinião, o Acordo Ortográfico conseguirá transformar o universo lusófono em uma grande frátria (pelo menos no sentido lingüístico?)


Creio que Luís de Camões e Fernando Pessoa preferiram a “Pátria” à “Frátria” agora sugerida por Caetano Veloso, mas também há quem recorra à “Mátria” – é uma questão de bom gosto desde que se prestigie a Língua Portuguesa!

5. Com relação à Galiza, região historicamente ligada à lusofonia, como é que ela pode ter maior participação na CPLP?

Na primeira reunião em torno da primeira versão do Acordo Ortográfico, realizada anos na Academia Brasileira de Letras (Rio de Janeiro) estiveram presentes alguns intelectuais galegos que propuseram a inclusão da Galiza, mas a sugestão não foi considerada porque todos os participantes representavam países – e não regiões. Admito que a mesma dificuldade ocorra no caso da CPLP, ainda que o problema mereça ser tratado sob o prisma cultural.

6. Como o Brasil pode auxiliar nesta inserção da Galiza na CPLP?

Confesso que não sei, mas entendo que o caso pode ser debatido na Imprensa, e por mim estou ao dispor para divulgar o que estiver ao meu alcance.

Estudioso de Fernando Pessoa, pediria que explicasse para os leitores, especialmente para os estudantes, dos primeiros ciclos, a importância de conhecer a obra do grande poeta.

A poesia, a ficção e os estudos pessoanos não são impenetráveis. Os professores podem explicar facilmente o espírito dessa obra; portanto, que a leiam, em primeiro lugar, assim como as interpretações de João Gaspar Simões, Adolfo Casais Monteiro, António Quadros, Jorge de Sena e outros ensaístas portugueses, brasileiros, espanhóis e franceses. Porém, tudo pode compeender-se, mas a leitura é indispensável.

7. Tendo lançado recentemente o livro Fernando Pessoa , Salazar e o Estado Novo, como definiu o pensamento político do poeta da Mensagem?

O meu propósito foi o de esclarecer, antes de mais nada, que o nacionalismo de Fernando Pessoa nada tem a ver com o “nacionalismo” de Antonio de Oliveira Salazar, que foi semelhante ao de Mussolini, Hitler e Stalin (cada um a seu modo). Confundiu-se o prémio que o poeta recebeu do governo salazarista com o regime. Deveria recusá-lo? Agiu muito bem o Poeta - e o tempo deu-lhe razão, porque chegou-se à conclusão de que a Mensagem nada tinha a ver com o regime. E pelos textos que juntei e comentei no livro Pessoa X Salazar conclui-se que Fernando Pessoa não poderia publicar, na época, o que pensava do ditador - a Censura não o permitiria. Os 5 poemas e os 17 textos em prosa são inequivocamente contra Salazar e tanto assim que o escritor foi ao ponto de declarar publicamente que não era possível escrever e publicar o que pensava.

Nota: O livro Fernando Pessoa, Salazar e o Estado Novo, da autoria de João Alves das Neves, e pode ser adquirido através da Livraria Alpharrábio (e-mail: alpharrabio@alpharrabio.com – telefone (11) 4438 4358 e custa R$ 20,00 (além das despesas do correio).