segunda-feira, 7 de junho de 2010

AS RAÍZES PORTUGUESAS NA ARTE COLONIAL BRASILEIRA

Recentemente, foi divulgada a inesperada controvérsia sobre um retábulo sacro pintado sobre madeira que está sendo disputado entre as igrejas matriz da cidade paulista de Mogi das Cruzes e a igreja de Nossa Senhora do Brasil, na capital paulistana. Não foram revelados informes sobre o valor artístico do retábulo, nem tão pouco o que representa a imagem, mas tão somente que a peça religiosa datará de 1749. Quer dizer, a pintura é do tempo em que o Brasil era uma colônia portuguesa.

Curiosamente fala-se com freqüência da arte colonial mas somente os especialistas costumam identificar, o riquíssimo acervo das cidades históricas de Minas Gerais que valoriza singularmente o barroco colonial, embora esse patrimônio assuma outras variações em Portugal e em alguns países ocidentais. Os estudos comuns da arte colonial pouco informam e a maioria dos dicionários quase nada esclarecem, mas o que tem de ser admitido é que a arte colonial, religiosa ou não, no caso do Brasil, revela com certeza o espírito lusíada, isto é, tem raízes lusitanas, apesar de realizada na terra brasileira.

O Atlas Cultural do Brasil do Conselho Federal da Cultura do Brasil, coordenado por mais de uma dezena de especialistas de diversas áreas certifica: “As Artes Plásticas no Brasil da era colonial se distinguem em dois períodos de autoria distinta. O primeiro se manifesta com maior relevância no século XVII, e seus principais autores são religiosos, monges e irmãos, europeus e nativos. Desses, mencionam-se com destaque os beneditinos Agostinho da Piedade, escultor, português de origem, que faleceu na Bahia em 1661; seu discípulo, Agostinho de Jesus, fluminense;o pintor Frei Ricardo do Pilar, originário de Colônia, Alemanha, falecido no Rio, em 1700, contemporâneo e companheiro de trabalho do toreuta entalhador Frei Domingos da Conceição da Silva. Entre os jesuítas, citam-se diversos que aqui viveram e produziram, sendo difícil a identificação de cada autoria no acervo restante. Por pesquisa histórica sabe-se da presença, entre Olinda e Bahia, dos pintores jesuítas quinhentistas Belchior Prado, Lagott, Baptista e Mendonça, porém sem obra remanescente. Na centúria seguinte através de um depoimento do Padre Antônio Vieira, sabe-se que Eusébio de Matos fora dotado de todas as artes, pintura inclusive, e que diversos outros jesuítas continuaram produzindo até o meados Setecentos, para o fausto da Igreja de Jesus (atual Catedral, de Salvador) entre eles, Domingos Rodrigues, Carlos Belleville e Francisco Coelho”.

“As tentativas de identificação de autoria tem falhado diante do enorme acervo jesuíta. Uma obra de notável destaque é o forro da primitiva sala da congregação e biblioteca do Colégio, executado na primeira metade dos Setecentos e único, em todo o País, de perspectiva aerial corrigida em relação a cada uma das figuras representadas e a cada elemento arquitetural figurado” (...)(1)

O esclarecimento é válido e poderemos estabelecer o paralelo recorrente das igrejas de Minas Gerais, entre outras do Brasil, mas principalmente pode relacionar-se com as informações do Atlas Cultural do Brasil e com os elementos reunidos nos milhares de verbetes do Dicionário de Artistas e Artífices dos Séculos XVIII e XIX em Minas Gerais (2), que documenta a conjugação de esforços de portugueses e lusos-descendentes (do Brasil) – talvez a maior parte de quantos trabalharam em terras mineiras não foram identificados, mas conseguimos referenciar cerca de uma centena de portugueses que trabalharam nos projetos e na construção dos inúmeros templos e de alguns palácios, espalhados pelo território mineiro, onde atuaram, no total, milhares de pedreiros, carpinteiros, ferreiros e toda a sorte de artífices, ao lado de centenas de artistas dos mais variados ramos, incluindo perto de uma boa centena de pintores, escultores e outros portugueses.

O patrimônio histórico e artístico de Minas Gerais é tão vasto e rico que ainda não foi inventariado no seu conjunto. E se há outros núcleos em diferentes lugares do Brasil eles se conjugam para testemunhar o engenho e arte dos que viveram na colônia que chegou a ser a sede do Reino Unido de Portugal e Brasil em condições que não sofrem comparações no mundo de ontem e de hoje.

O inventário da participação portuguesa no Brasil continua incompleto: faltam milhares de igrejas construídas no tempo da colônia, assim como certos museus, com destaque para o de Arte Sacra de São Paulo, que soube reunir uma grande série de peças religiosas de origem lusa, bem como várias instituições culturais dispersas pelo vasto território brasileiro.

(1) Os estudos reunidos no Atlas Cultural do Brasil foram editados em 1972 pelo Conselho Federal de Cultura (MEC/FENAME), então presidido pelo Prof. e Escritor Arthur Cézar Ferreira Reis.

(2) Publicado sob a direção de Judith Martins, com o apoio de numerosos colaboradores – o 1º. vol. tem 406 págs, e o 2º. conta 396 págs. (Publicações do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Rio de Janeiro, 1974).

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Crônica do Brasil: SANTO ANTÓNIO NA CIDADE DE SÃO PAULO


Ao mesmo tempo que é a maior cidade de Língua Portuguesa, a cidade de São Paulo deve ser também a metrópole com mais paróquias e instituições antonianas do mundo, pois reúne 10 paróquias e outras 10 entidades consagradas ao padroeiro de Lisboa.


O que é surpreendente mas nem sempre reconhecido pelos seus quase 11 milhões de habitantes – quer dizer, mais pessoas que Portugal inteiro. Fundada oficialmente em 25 de Janeiro de 1554 pelo Padre Manuel da Nóbrega, que veio a ser o primeiro Superior da Companhia de Jesus no Brasil (recorda-se que no mesmo ano nasceu igualmente a povoação de São Paulo de Assunção de Luanda), São Paulo começou a crescer vigorosamente em meados do século XIX, graças a chegada dos emigrantes lusos, espanhóis, italianos e de outros países europeus, que escolhiam a região por ter um dos melhores climas do País – a terra é boa e favorável à agricultura, ao ponto de o Estado dos Paulistas ser hoje não só o mais populoso mas igualmente o que mais produz na agro-pecuária e na indústria do País.


Deste modo, explica-se a devoção a Santo António, de acordo com o Guia da Arquidiocese de São Paulo: a vintena de instituições antonianas das entidades eclesiásticas que já homenagearam o popular santo português estão dispersas por 10 bairros (ou sectores religiosos) e em 2 deles são invocados o lugar onde nasceu Fernando Martim de Bulhões (que depois assumiu a denominação religiosa de António), 1 menciona a terra onde ele morreu (Pádua) e as outras paróquias citam apenas o nome conhecido de Santo António. Aliás, devem ser apontadas também uma igreja não-matriz (todas as paróquias têm o seu templo votivo), além de uma capela, um colégio, uma casa e mais 4 sedes comunitárias.


Diz o historiador Luís da Câmara Cascudo (o mais importante folclorista brasileiro, com mais de uma centena de livros), no seu Dicionário do Folclore Brasileiro (2 volumes) que o milagreiro ulissiponense é o santo mais popular do Brasil. E entre as inúmeras obras sobre o grande e culto santo português merece destaque o livro Santo António de Lisboa militar no Brasil, da autoria do historiador José de Macedo Soares - a edição de 1942 é belíssima e a mais ampla que conhecemos, dando inúmeras informações acerca do santo que nunca veio ao Brasil, mas que continua influenciando milhões de brasileiros.


A notícia que damos sobre a existência de 10 paróquias e outras 10 instituições na Arquidiocese de São Paulo são mais do que suficientes para testemunhar a devoção pelo santo que nasceu em Lisboa e morreu em Pádua. E é claro que não são referidos os outros lugares do Estado de São Paulo, onde há talvez milhões de devotos de Santo António, entre os quase 40 milhões de habitantes paulistas (paulistanos são os que nascem na cidade homônima). Quer dizer, Santo António continua vivo em São Paulo e, por extensão, no Brasil).

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Peço a palavra: NO ANO DE 2009, OS PAÍSES DE IDIOMA PORTUGUÊS APROXIMAM-SE DOS 250 MILHÕES DE HABITANTES.

A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa reúne quase 250 milhões de habitantes, cifra que não vai demorar a atingir, se considerarmos as estimativas do Almanaque Abril 2010, que é publicado anualmente em São Paulo desde 1974 pela Editora Abril.



Trata-se de estimativas, pois não há recenseamento oficial da população dos 8 países de idioma oficial comum. Quanto às fontes utilizadas, são várias, porém selecionadas com o maior rigor possível. E não havendo outras, devemos considerá-las úteis, visto que importa conhecê-las e avaliá-las, já que são baseadas no crescimento demográfico de cada um dos 8 países, o qual atinge 2,7% ao ano em Angola, 1% no Brasil, enquanto em Portugal se limita aos 0,3% e na Guiné (Bissau) sobe para 2,2%, embora o crescimento populacional de Moçambique seja de 2,3%, assim se explicando que este país africano seja agora o 2º mais habitado, logo seguido por Angola. Quanto a Portugal, é o 4º.



Não pode esquecer-se que os 8 países assumiram oficialmente o idioma português, mas não deve esquecer-se que em vários deles nem todos os habitantes falam o nosso idioma.



Enfim, o que mais nos interessa saber, nesta circunstância, é que em qualquer órgão internacional os representantes dos 8 se exprimem em português e, nestas condições, somos já uma das maiores comunidades lingüísticas do mundo. E faremos, por acréscimo, mais duas anotações: o total das exportações de 7 deles (não dispomos das cifras de Timor-Leste) ascende a 254.821 milhões de dólares enquanto as importações dos mesmos 7 chegam aos 220.379 milhões. Trata-se de somas muito importantes, pois traduzem a realidade econômico-financeira da nossa Comunidade, ficando claro que o comércio internacional dos 8 não pode ser ignorado dos maiores compradores e vendedores mundiais.



Ponto de relevo é igualmente a comparação da “renda per capita”, segundo os números divulgados pelo Almanaque Abril 2010: a distribuição por pessoa, em Angola, seria de US$ 2.590 por ano, a do Brasil estaria nos US$ 6.060, cabendo US$ 2.680 a Cabo Verde, US$ 220 à Guiné (Bissau), US$ 340 a Moçambique, U$ 18.960 a Portugal e US$ 920 a São Tomé e Príncipe. E por estas cifras se pode observar que todos os 8 países comunitários continuam relativamente pobres, se compararmos as rendas “per capita” com as dos paises ricos!



Finalmente, damos aos leitores que nos acompanham o quadro que resumimos do Almanaque Abril 2010 relativamente às populações, exportações e importações de cada um dos 8 Países de Língua Portuguesa: