quarta-feira, 17 de junho de 2009

"In Memoriam": HENRIQUE GALVÃO, ESCRITOR E POLITICO - Parte II

A bibliografia de Henrique Galvão é extensíssima e abrange mais de 20 volumes, entre ensaios de carácter científico e de ficção e teatro (incluindo a poesia de Grades Serradas), a-par de quatro dezenas de livros que o biógrafo Eugenio Montoito considerou de “intervenção política e administração colonial” (5 em torno do governo salazarista). Foi ainda tradutor de 8 peças de Eugénio O’Neill e mais duas de Lionel Shapiro e Jean de La Varande, a-par de um livro de Pierre Goemar. E prefaciou igualmente a edição portuguesa das Obras Poéticas de Manuel Bandeira.

Entretanto, deve ser assinalada a edição de La Vida y la Muerte em la Selva (Costumbres de animales salvajes / Caza mayor y su técnica), obra que assinou em conjunto com Teodosio Cabral e Abel Pratas. Ignoramos a participação de cada um deles, mas na 2ª. edição informa-se que a obra foi revisada e ampliada com notas de Bermudo Melendez (da Universidad Central), acrescentando-se que a tradução é de Carmen Diaz Herrero. No Prólogo, o Prof. Melendez esclarece: “Las fotografias que en la presente edición se insertan , proporcionadas por los señores Pratas y Fénikövi, tienen un alto valor cientifico y artístico exceptionales”. (Ediciones Paraninfo, 1967, Madrid).

Nesta 2ª edição de 600 páginas vêm dezenas de fotografias a preto-e-branco. Pouco antes de ser hospitalizado, em 1986, disse-nos o Cap. Henrique Galvão que da Espanha deveriam enviar-nos um exemplar de La vida y la muerte en la selva – e um dia o volume chegou-nos a São Paulo pelo correio, sem carta nem cartão...

O primeiro contacto com o Capitão Henrique Carlos Malta Galvão ocorreu durante a visita que ele fez ao jornal O Estado de S. Paulo (onde trabalhamos como jornalista de 1958 a 1989), após o episódio do navio Santa Liberdade. Já era famoso quando o vimos no comício da campanha à presidência do Almirante Quintão Meireles, e entre os artigos que sobre ele publicámos em O Estado lembramos o dedicado ao romance anti-racista Pele. E desde que o Cap. Galvão foi convidado a trabalhar no jornal conversávamos amistosamente (ele só manteve laços de amizade com o jornalista português José Santana Mota e connosco, tendo cortado o diálogo, com outro compatriota, na redação). Não participámos da efêmera Frente Antitolitária dos Portugueses Exilados, que ele criou, mas continuamos amigos. Certo dia, o Capitão ficou doente e avisamos o Dr. Júlio de Mesquita Filho, diretor de O Estado de S. Paulo, que mandou marcar uma consulta com o médico do jornal. O clínico recomendou que fosse hospitalizado – e pediram-nos que o acompanhássemos à Clínica Bela Vista, em São Paulo, onde ele ficou internado por quase 4 anos. Raros amigos o visitavam e pediram-nos que informasse a Direcção do jornal. Quando os médicos acharam que a doença do Capitão era irreversível, foi solicitada a intervenção do Governo de Lisboa para que ele pudesse voltar a Portugal. A resposta foi implacável – o regime comprometia-se a pagar a clínica, mas regressar, não! E no dia 25 de Junho de 1970, Henrique Carlos deixou-nos. Ao velório compareceram 9 pessoas, entre os quais o Dr. Ruy de Mesquita, atual diretor de O Estado de S.Paulo - e apenas 6 portugueses o acompanharam ao cemitério paulistano de Vila Nova Cachoeirinha. Posteriormente, quando fomos a Lisboa recebemos a derradeira tarefa: levar o dinheiro que ele deixara – pouco mais de 3 mil cruzeiros! – e entregá-lo à viúva, D. Maria de Lourdes Galvão.

Somente em 10 de Novembro de 1991 os restos mortais do Cap. Henrique Galvão foram trasladados para um mausoléu do Cemitério dos Prazeres, graças às diligências do Diretor de O Estado de S. Paulo, Dr. José Maria Homem de Montes, que declarou em Lisboa: “Hoje, o Estado Português presta a Henrique Galvão a homenagem no círculo dos que souberam ousar e não se conformar.”

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