sexta-feira, 22 de maio de 2009

Cartas da Diáspora: O OLIVEIRENSE ABREU E CASTRO ROMANCEOU GUARARAPES E FUNDOU MOÇÂMEDES - Parte II

Segundo Gonsalves de Mello, o romance de Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro “é digno de ser conhecido e reeditado”, pois documenta a terra e a gente de Pernambuco, costumes e monumentos: “Aí estão as informações acerca da Sé de Olinda, antes Matriz do que Catedral – onde chega a copiar textos de inscrições tumulares: de outras igrejas olindenses; da chamada Casa da Ópera, o velho Teatro de São Francisco”, etc.

Oportuno será transcrever uma das inscrições, traduzida do latim para o nosso idioma: “Jaz nesta sepultura o varão que por todos os títulos mereceu a imortalidade, ou porque bem vivera, ou porque morreu sanctamente, D. Mathias de Figueiredo e Mello, Bispo d’Olinda, o qual se olhares para a saudade do seu rebanho, viveu pouco; se para as suas acções praticadas em seis annos, viveu bastante; se para a calamidade dos tempos, viveu mais que muito; se para a memória das suas obras, sempre há de viver. Morreu com 40 annos de idade: no de Christo 1694”.

O comentário de Abreu e Castro não menciona a naturalidade do “Bispo Santo” (era de Arganil, seu vizinho beirão, e poderia ser até parente do nogueirense parte dos Figueiredos), limitando-se o romancista a salientar: “Pelo epítáfio se pode avaliar o merecimento d’este notável Prelado: não foi a lizonja quem o dictou. Longe dos seus só as suas eminentes virtudes lhe ganharam este padrão. Immite-o quem igual o quiser conseguir...”

Alude à ação que teve D. Mathias, na condição de Governador da Província de Pernambuco, ao substituir interinamente o titular Fernão Cabral (13-9-1688), que morrera, até â chegada (21-5-1689) do novo Governador, Antonio Luiz Gonsalves. Prosseguindo, escreve Abreu e Castro: “Foi mui commum a sua primeira sepultura; mas passados seis annos, o echo das suas admiráveis virtudes não o permitiu por mais tempo entre os desconhecidos. Foi trasladado para o Carneiro (ao lado do Evangelho do Altar-Mor da Sé); e referem as memorias do Cabido que, no acto da trasladação, se achou ioncorrupto, e que tocando-lhe, por acaso, um ferro do artista em um dedo, este vertera sangue”.

Terminamos com as palavras de Gilberto Freyre, quando visitou Moçâmedes, onde encontrou (em 1952) “uma comunidade luso-tropical caracterizada por um quase sistema de relações simbióticas de grupos étnico-culturais uns com os outros e de todos com o ambiente ou o meio tropical”. Mais adiante, declara o sociólogo brasileiro: “De alguns daqueles colonos sabe-se que se especializaram, como Bernardino de Figueiredo, em cultivar muito brasileiramente, em Moçâmedes, algodão e cana de açúcar; e com tal sucesso que amostras de algodão da fazenda e do açúcar do engenho do mesmo Figueiredo figuraram em 1865 na Exposição Internacional do Porto”. Finalmente, declara Gilberto Freyre que baseou as suas observações, em boa parte, na Memória fornecida à Câmara Municipal de Moçâmedes pelo cidadão Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro – palavras que consagram definitivamente o alto conceito científico e cultural do beirão de Nogueira do Cravo. (3)

(3) O estudo Em torno de alguns túmulos Afro-Cristãos, da autoria de Gilberto Freyre, foi divulgado em 1959 pelas Publicações da Universidade da Bahia (Brasil)

Um comentário:

Gilson disse...

Olá! Estou pesquisando esse tema e aprecio as informações contidas em seu blog. Gostaria de saber qual seria o título da obra de Gilberto Freyre que citou aqui, publicada pela universidade da Bahia em 1959.
Grato desde já pelo esclarecimento dessa dúvida.

Gilson Brandão Junior (gilsonbass@yahoo.com.br)