terça-feira, 10 de março de 2009

A GASTRONOMIA DA BEIRA-SERRA - Parte I

Todos sabemos que a Gastronomia Portuguesa é rica e variada, mas entre os mil e um pratos sugeridos aos nossos "gourmets" e aos que vêm de fora em busca de sabores diferentes, tão agradáveis como saudáveis.

O surgimento das Confrarias Gastronômicas poderá contribuir positivamente para aperfeiçoar e alargar ainda mais as receitas culinárias. E a variedade faz o resto, quer no capítulo do gosto, quer no da valorização alimentar. Por isso, é natural que, para lá da atração turística, a arte culinária venha a ser, ao mesmo tempo, de grande importância econômica, conforme ilustram as apreciadas gastronomia da China, da França e da Itália, ainda que certos pratos típicos "estrangeirados" sejam por vezes exóticos ou intragáveis para o nosso paladar.

Já lá vai um bom par de anos depois que começamos a selecionar receitas e de lermos obras especializadas ou procurando informações e conselhos a respeito da Gastronomia, mas confessamos a preferência pelo regional – e não pela chamada "cozinha internacional", que é semelhante ou pelo menos parecida às de Hong Kong, Paris, Londres ou Madrid. E assim fomos somando uma vasta bibliografia, que vai até aos livros sofisticados e se dispersa por centenas de apontamentos e recortes de dezenas de publicações periódicas.

Não podíamos ignorar, é claro, Um Tratado da Cozinha Portuguesa do Século XV, cujos cadernos manuscritos ficaram anos e anos esquecidos na Biblioteca Nacional de Nápoles, atribuindo-se a autoria à Infanta portuguesa D. Maria, que pelo casamento se tornou Duquesa de Parma (as menções biográficas são variáveis e contraditórias). Porém, não é isso que importa, mas a certeza de uma raiz multisecular cientificamente documentada. Quer dizer, há que seguir a História devidamente fundamentada.

A maioria dos "livros de cozinha" abre com as receitas de sopas e caldos, pães, peixes e carnes (à moda de ...), antes de enumerar as sobremesas que destacam os queijos e doces. (Paradoxalmente, a maioria desses livros refere de maneira superficial os vinhos, embora exista uma imensa variedade, bem como de licores, aguardentes – e por falar nesta última só descobrimos a de mel que provámos pela primeira vez na casa do Padre José Vicente, em Coja, e que nos passeios que fizemos pelas serranias beiroas reencontramos num lagar da Mata de Fajão, onde nos levou o saudoso amigo.

Graças à pesquisa que temos realizado, já identificámos, na Beira-Serra, 14 receitas de sopas e caldos, migas e papa-laberças, salientando que em determinados casos há apenas a mudança no peso ou na adição de um tempero – e que o mesmo prato se repete quase igual em outros pratos que não indicam a origem, isto é, as terras onde são cozinhados. E quanto ao pão só pudemos apontar 2 tipos, embora saibamos que são em grande número os pães de milho, trigo, centeio e mesmo de cevada.

Recorda-se que nos hábitos alimentares dos Beirões, o Bucho tem uma posição singular: fala-se muito dos que são feitos em Folques, Vila Cova do Alva e, agora, em Arganil, mas descobrimos numa obra especializada referência ao de Álvares. E em outras fontes apontam-se os buchos de porco de Pardeeiros, da Benfeita e dos que se fazem ou faziam em Coja (dispomos de 3 receitas diferentes ou aproximadas), mas, infelizmente, nem todas com indicações precisas sobre a quantidade dos ingredientes utilizados.

Curiosamente, lembra-se que em Oleiros o bucho também é conhecido pelo nome de "plangaio". E listámos mais 3 tipos de bucho, em terras beirãs, mas sem nenhuma indicação da procedência. Entretanto, pudemos conhecer 2 modos de cozinhar os "Maranhos", admitindo que este bucho de carneiro ou cabrito é igualmente preparado em diferentes povoações, incluindo as pampilhosenses.

Idêntica notícia pode ser divulgada sobre o cabrito: cita-se o recheado à moda do Barril de Alva (em vários livros de culinária é mencionado de forma não exactamente igual). E há os preparados à moda de Coja, da Benfeita e de Fajão, além do estonado de Oleiros e da Pampilhosa, bem como de outros da região, porém não localizados.

Para a Chanfana, sabemos da que se faz em Vila Nova de Poiares, devendo acrescentar-se os 2 modos pampilhosenses (um deles estonado) e os benfeitense e cojense, a-par de outros preparados em terras beirãs e demais regiões do País.

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